Poeta Fábio de Carvalho Multiartista Pernambucano

quarta-feira, 28 de março de 2012

das intenções e das vontades / efigênio sampaio (Autor:Fábio de Carvalho) - (Esta é uma das características de Efigênio Sampaio, meu Heterônimo mais Fiel) (22/03/2012)

“Quisera eu, andar por aí, descalço e maltrapilho, sem botas polidas nem vintém de ouro. Melhor isto do que viver, e um dia, olhar para o próprio passado, e indagando o próprio destino, se perguntar o que foi que eu fiz e o que eu deixei brotado de mim... A Literatura é a minha semente. Tenho muitas sementes literárias. Por onde passo planto um bocado delas...”  efigênio sampaio (heterônimo de fábio de carvalho)


     

das intenções e das vontades / efigênio sampaio (um dos meus heterônimos - Poema do livro: O Lavrador do Mundo, terceira parte "Poemas Eméritos" (Efigênio Sampaio, ou simplesmente, Fábio de Carvalho)


Quisera eu, poder enxergar além dos horizontes luminosos com um rubro olhar. Antes isto do que acreditar na luz própria sem sequer carregar um raio de amanhecer que me faça renascer após o cair de cada aurora.

Quisera eu poder correr sem a pressa do vento que devasta. É preferível andar devagar do que no alvoroço, tropeçar e cair em tombo mortal e não ver o sonho consumado e merecido.

Quisera eu nadar em oceano de lágrimas de lutas do que me banhar com água de fonte pura à custa de quem não soube o que foi sentir o frescor de gotas de orvalho que nos surpreende quando a brisa balança as folhas sem propósito algum.

Quisera eu poder curva-me aos caprichos daqueles que buscam na deslealdade a ascensão. Isto antes do que erguer-me no altar dos ricos em posses e poderes e não carregar nos ombros a dignidade de quem soube que a vida ideal é aquela que idealizamos para nós sem a mancha do ato sujo e insignificante.

Quisera eu poder falar com a voz do silêncio, nas madrugadas de insônia, palavras mudas que apenas eu escute. Melhor silenciar do que proferir lamentáveis vocábulos que nos iguale aos que dizem que às palavras não cabem limites.

Quisera eu ser um miserável, esfarrapado e incapaz; debilitado pela tristeza e pelo sofrimento. Antes isto do que arruinar com palavras ou gestos o sonho daqueles que por força, traçam suas metas nas trilhas dos seus sonhos, das suas idealizações serenas e admiráveis.

Quisera eu ser o pó que o vento leva, o lixo que a chuva encaminha para os saneamentos ou o fungo que empesta a plantação. Ao menos sendo o pó, fui algo próprio, de mim mesmo; e sendo o lixo, não quisera que ninguém o fosse, o tratando como tal... E sendo o fungo, não faria de ninguém um verme ou parasita com palavras malditas e impróprias.

Quisera eu, andar por aí, descalço e maltrapilho, sem botas polidas nem vintém de ouro. Melhor isto do que viver, e um dia, olhar para o próprio passado, e indagando o próprio destino, me perguntar o que foi que eu fiz e o que eu deixei brotado de mim.

A Literatura é a minha semente. Tenho muitas sementes literárias. Por onde passo planto um bocado delas.

Cortês – Pernambuco, quinta-feira, 22 de março de 2012.
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Para quem não sabe do que se trata um Heterônimo:
Personagem fictícia, criada por escritores (como o caso de Fernando Pessoa), cujo objetivo é tentar compreender e propagar diferentes maneiras de ver a realidade exterior/interior, tentando manter distância da visão da realidade ortônima.
Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis são famosos heterônimos de Fernando Pessoa.

Efigênio Sampaio, Luís Fernando Calado e Miguel Alberto de Albuquerque. são Heterônimos do poeta Fábio de Carvalho, este que vos escreve. 

terça-feira, 27 de março de 2012

ato de saudade / fábio de carvalho (26/03/2012)



ato de saudade / fábio de carvalho


Reconheço que aprendi muitas coisas com o tempo.
Não me resguardo em dizer que tudo que aprendi, aprendi sozinho.
Seria injustiça minha não reconhecer o tempo como o pai de muitas experiências.
Nada além da experiência me resta.
Hoje sei olhar para o horizonte com mais serenidade no olhar do que a algum tempo.
É por isso que louvo o tempo.
O tempo é um santo! Uma espécie de messias abstrato, que na hora certa, faz as coisas acontecerem.
Não procuro interpretar todos os sinais do destino, pois, sei que o tempo só chega na hora correta, propícia, ideal...
O ideal para mim é aquilo que ocorreu em momento oportuno.
Já discuti muito com as situações de fatos consumados.
Não me compreendo apenas com um olhar de uma ótica própria.
Analiso-me hoje com um olhar externo e impessoal.
Creio no tempo e no destino, sem saber qual dos dois é o produto do outro.
O que sei, e afirmo, é que ambos são independentes e ao mesmo tempo interligados neles próprios.
Eu, por vezes, não penso que sou independente do tempo ou do destino...
Não sou independente das coisas vivas ou mortas...
Não sou independente do alimento carnal ou espiritual...
Necessito de muita coisa ao meu redor e de longe de mim...
Há... De longe de mim... E como...

À distância me dilacera o espírito sem pedir licença.
O tempo sempre me trás esses mal-estares.
Acabo me vendo pelo avesso em muitas ocasiões.
Meu interior me olha de fora pra dentro como se reluzisse de mim uma luz obscura que não apenas escurece meu espírito, mas também o meu olhar distante.

Ontem te esperei no cais...
Você não veio! [__Por que não viestes?]
Por quê te fostes na caravela do destino?
Estou sem compreender esse desencontro, essa distância física...
Apesar dos pesares, quando não consigo te observar – confesso –, consigo te sentir.
Para isto, fecho apenas meus olhos e transporto tua imagem para dentro de mim.
Não é possível que sentindo isto que tu sentes permaneçamos esses restos de vidas apartadas como o dia da noite... se cruzando apenas algumas vezes como a aurora e o crepúsculo que parte...
Imagino as vezes que somos dois amanheceres em lados opostos na ânsia de realizarmos eclipses diários...
Como não encontro maneira, fico no cais, a espera de ti no dia seguinte...
Mas você não vem...
Mais uma vez você não veio...

Pergunto-te agora como faremos para apagar este trauma, esta chaga de saudade.
__ (?)
Preciso de uma urgente resposta.
Eu não diria que o nosso laço se desprendeu ou que ao segurar de leve você puxava, desatando-o.
Nada mais doloroso do que uma despedida sem despedir-se...
Nada menos triste do que uma saudade terna narrada em linhas de amargura...
Tudo isto, em um ato de saudade, se completa quando o vazio em si se instala e permanece no vazio da mente nas noites sem barulhos.
Vi que somos o que éramos.
Continuamos os mesmos na mesma distância, no mesmo amor incompreensível; talvez o maior de todos...

Eu acreditei um dia que fomos eternos como esta saudade que não cessa.
Eu me enganei.
Eu me enganei como tantos se enganam.
Não podemos voltar os ponteiros dos relógios com a mesma perfeição que o tempo os fazem girar rapidamente.
A minha chance agora, é observar-te de longe, sem compromisso com o que pensarei, pois não podemos frear aquilo que o nosso coração transmite para nossa mente.
A vida triste é consequência da falta de atitude.
Os sonhos quase mortos são resultados de ilusões perdidas nos caminhos sem voltas.
As perguntas sem respostas são frutos dos muitos momentos de silêncio que fizemos questão de executar, e isto, sem saber que o silêncio também fala.

Ontem te esperei passar, mas você não passou...
Ontem esperei tua chamada, mas você não chamou...
Ontem te senti bem perto de mim quando fechei os olhos, e posso te garantir que senti-nos abraçados.

A minha estrada se perdeu.
O meu olhar está um pouco disperso.
O meu sono descontrolado.
A minha incompreensão aguçada.
O meu semblante perdido.
As minhas mãos trêmulas de tanto escrever.
Tenho escrito muito ultimamente.
Não percebo mais quanto antes às horas.
Perdi um pouco a noção do tempo.
Talvez, as horas que eu tenho saído para ver se te encontro não foram às horas adequadas, ditas, naturais.
Estou devendo algumas horas ao sono, ao compromisso com a felicidade, aos efeitos anestésicos da saudade.
E tenho dito a mim mesmo que não vou mais me amargurar com esta situação.
Tenho dito...
Não vejo as horas que me olho no espelho e me prometo isto e muito mais coisas...

O que me resta a não ser as promessas não cumpridas...
Os pactos não consumados...
Os encontros irrealizáveis...
As noites a escrever.

Nosso destino está escrito a sangue de um amor cintilante.
Mas a sombra do tempo tem nos dado o amargor da distância...
Tem nos oferecido as doses mais acrimoniosas que se tem conhecimento.

E só me restam os efeitos da saudade...
Os poemas de saudade...
Os sonetos de saudade...
Os atos de saudade...

Cortês – Pernambuco, segunda-feira, 26 de março de 2012.

quinta-feira, 22 de março de 2012

linhas de amargura / fábio de carvalho (21/03/2012)


“Assim, me ponho a reelaborar meus dias traçando um esboço negro, apoiado em um lápis amigo, que me ajuda a delinear minha amargura da mesma forma que minhas noites me auxiliam na reflexão pulsante e melancólica sobre meus ideais ultrapassados e sobre os meus sonhos de impossibilidades”. Fábio de Carvalho




linhas de amargura / fábio de carvalho

Se a minha dores fossem de pedra ela se dissolveriam...
Se as minhas angústias fossem de água elas se evaporariam...
Se as minhas tristezas fossem de ar elas passariam...
Se as minhas carências fossem como o sono elas cessariam...
Se as minhas saudades fossem como os dias elas não voltariam...
Se as minhas imperfeições fossem como o amanhecer elas se lapidariam...
Se as minhas imensas sensações de vazio fossem como as ondas do mar elas se esvairiam...
Se as minhas sensações de eterna melancolia fossem como as noites que se vão, elas até que retornariam, mas creio que em cada retorno, elas se diminuiriam tal qual o rochedo da mais alta montanha, que com o passar do tempo, se rescinde...

Mas como a minha dor não é de pedra a cada dia ela se solidifica mais...
E constatando ainda que as minhas angústias não são de água elas escorrem dos meus olhos como um degelo em mares rubros...
Ainda sabendo que as minhas tristezas não são feitas de ar, sinto a cada dia elas retornando... Como um pôr do sol triste, no fim de uma tarde de sombras baldias, abatidas...
Percebendo e tendo infinita certeza que as minhas carências não são como o sono, fico dias e mais dias, a contemplar o céu com ou sem estrelas, com ou sem a lua, entregue a insônia desonesta e torturadora...
Vejo com os olhos da alma que as minhas saudades não são da mesma essência que os dias, pois se fossem, elas não voltariam... Todos os dias são diferentes. Cada dia que renasce é um outro dia qualquer... Mas enquanto isso, as minhas saudades são as mesmas.
Mais uma certeza que carrego comigo, é que as minhas imperfeições não são como o amanhecer ou os amanheceres que brotam das noites escuras ou estreladas, pois se fossem, ao menos às vezes, elas rebrotariam com algum raio luminoso que fosse... Um raio que renasce, que ressurge... As luzes dos amanheceres são símbolos dos renasceres... As minhas imperfeições são reflexos baldios das minhas chagas espirituais e das minhas eternas saudades...
É por isso que me encho de uma sensação de vazio que não cessa.
Assim, me ponho a reelaborar meus dias traçando um esboço negro, apoiado em um lápis amigo, que me ajuda a delinear minha amargura da mesma forma que minhas noites me auxiliam na reflexão pulsante e melancólica sobre meus ideais ultrapassados e sobre os meus sonhos de impossibilidades.
Arrasto os pés com cuidado durante as noites que caminho de um lado ao outro analisando essas deficiências que carrego.
Não quero me comprometer com o tempo, com o abismo que é a felicidade, pois ninguém pode se comprometer em ser feliz.
A felicidade, além de ser medida incerta como o tocar em uma estrela, é um desafio sem fim, uma longa estrada sem trajeto, uma noite sem a expectativa de um amanhecer ou um dia sem o brilho cadente e solar, é um enigma infinito, uma interrogação abstrata, uma noite que se vai para o mundo das perguntas sem respostas.

Nunca busquei decifrar a felicidade como as respostas que talvez encontro para as coisas mais simples.
Talvez algum dia eu me ponha ao dever ou a satisfação de analisar a felicidade, mas antes disso, devo reconhecer este sofrimento que brota da alma como desafio primário e como página do meu destino que fora desenhado a sangue que pulsa e jorra da mente.
Já não percebo se as noites duram...
Talvez seja incompreensível para mim a minhas dores, angústias, tristezas, carências, saudades, imperfeições, sensações de vazio e essa eterna melancolia que me torna etéreo, imperceptível às vezes...
Vejo agora que no meu olhar mora um desconhecido secular...
Já não calculo quantas horas por dia passo sem me mover ou sem olhar para outra direção...
Constato ainda que meus anseios são simples, de ingenuidade aguçada, porém de grandiosidade expressiva.
Os meus olhos, como já havia escrito, são longes...
Talvez vagos...
Mas certamente são de horizontes profundos...
Dolorosos, como negar?...
Ásperos... De saudades e de coisas que nem eu mesmo compreendo...
O que sei, e é o que tenho certeza, é que são profundamente afetuosos...

E se a minha noite não vier ou meu dia não brotar a única certeza que fica, é que tais deficiências, já nulas fisicamente, me deixarão por algum tempo, me aliviará por merecimento próprio...
Ocasionara-me sentir a felicidade tão abatida e desfigurada pelo meu distante olhar...
Por essa minha dor que não cessa...

Cortês – Pernambuco, quarta-feira, 21 de março de 2012.

terça-feira, 20 de março de 2012

talvez seja... / fábio de carvalho (19/03/2012)

"...Nem todas as luzes permanecem acesas por toda a vida...
É por isso que quem escreveu que a luz da saudade é um eclipse da alma está correto".
                                                                      Fábio de Carvalho


talvez seja... / fábio de carvalho


Quem falou que a saudade sangra disse nada mais que a verdade.
A verdade não sai da boca de qualquer um.
É preciso ser algo mais para falar a verdade.
Não se faz necessário se cobrir de roupas finas, de calçados polidos...
Para dizer o que se é ou aquilo que poderá ser basta entender daquilo que se vai falar.
É por isso que quem falou que a hemorragia da saudade não estanca falou a mais pura verdade, a maior de todas as declarações.

O compromisso com a palavra é coisa séria e importante.
Regado ao compromisso, está à experiência em falar.
É por isso que quem afirmou que a saudade mata não disse nada mais do que a própria realidade.

A saudade mata a presença das coisas bonitas ao nosso redor.
Ela não nos deixa enxergar as coisas que alegram o ambiente.
A saudade não nos deixa ver as pessoas que estão ao nosso redor.
O pôr do sol fica baldio...
O amanhecer, aos nossos olhos, é rubro e eternamente triste.
Talvez, a saudade seja um enigma, uma ausência de luz...
É por isso que quem disse que a saudade é escuridão soube o que falou...

Nosso intimo é repleto de uma luz incrível...
Mas na saudade, ou com a saudade, essa luz se apaga.
Nem todas as luzes permanecem acesas por toda a vida...
É por isso que quem escreveu que a luz da saudade é um eclipse da alma está correto.

Todos, ou aqueles que já sentiram ou sentem a ausência presente de algo que o esvaziou, compreendem que esta ausência, esta saudade, é a presença viva daquilo que não nos é permitido mais reviver...
É por isso que quem disse que a ausência é presença, nada mais pronunciou do que a própria verdade...

- ...esta ausência que sangra, que dói, que enfraquece, que desarma, que pune, que injustiça, que maltrata e que é desleal - ...

Talvez seja...
Talvez a saudade seja isso.

Cortês – Pernambucano – Segunda-feira, 19 de março de 2012.



domingo, 18 de março de 2012

as respostas do tempo / fábio de carvalho (17/03/2012)


"Nas margéns que ainda não caminhei espero ver-te algum dia...
Catando folhas secas...
Observando uma onda que se dissolve...
Ao relembrar situações, ponderações, nossos fatos não consumados..."
                                                                               Fábio de Carvalho



as respostas do tempo / fábio de carvalho

O tempo me surpreendeu com uma das suas surpresas.
Fiz-me algum tempo de ingênuo.
Com certeza todos nós guardamos algo de criança dentro da gente.
Ao destino eu nunca atribuí algo que muitas vezes dependeu de mim.
O destino é o meio pelo qual nós nos encontramos atados, ligados inseparavelmente.
Percebendo isto, não pude aceitar algumas coisas que só dependia de mim e deixei que fosse...
Você sabia o quanto representava algo mais forte.
Nada nem ninguém sonha o que de fato nos aflige.
O correio do destino é o tempo, onde as feridas não cicatrizadas, inflamam através das lembranças.
Jamais pude perceber que minha memória fosse tão perfeita para guardar lembranças.
O coração que suporte tantas palpitações.
O que deveria ocorrer de fato?
Nem você nem eu saberemos a resposta...
O que nos mantêm vivos são os dias que chegam...
...os dias que se vão...
Eu me vi preso ao teu tempo como ele próprio está para o destino.
Perguntei-te se desejavas ir...
Teu silêncio respondeu.
Imaginei que falarias, mas teu olhar disse tudo...
O que imaginar de alguém que fala com os olhos da alma?
Nosso coração interpreta perfeitamente as respostas produzidas pelo brilho luminoso das retinas...
Caberia a quem de nós mudarmos o rumo das coisas?
Se existe culpado, não o encontro...
Afinal de contas, nós sempre nos curvamos perante os nossos anseios, as nossas saudades, os nossos sentimentos de espera...
Não me surpreendi com o desatar do laço;
Você puxou de um lado enquanto eu segurava do outro.
Foi tão leve o desprender de destinos...
Ao desatar senti um leve sopro de dor...
Meu coração me faz sentar e repensar coisas sobre o tempo.
Minha memória recapitulou coisas que eu não mais imaginava.
Fostes e ainda és aquilo que sei que és.
Cada amanhecer me relembra as nossas asas batendo e voando para lados opostos.
Creio que se voarmos o mais alto que pudermos, em circulo, um dia, nos encontraremos novamente.
A palavra que me restou foi aquela mesma do silêncio dos teus olhos...
O que faltou em gesto foi o continuar dos olhares retos, cruzados um no outro.
O que ficaram foram lembranças singulares, onde não se encontram em qualquer pontal, qualquer caravela...
Jamais pude imaginar que o desencontro fosse desenhar esse destino tão doloroso, porém, tão satisfatório...
Nas margens que ainda não caminhei espero ver-te algum dia...
Catando folhas secas...
Observando uma onda que se dissolve...
Ao relembrar situações, ponderações, nossos fatos não consumados...
Talvez a tua vontade seja outra.
Talvez o teu querer tenha mudado...
Mas sei que quando me veres, tudo voltará ao que era...
Tudo será como antes...
Tudo mesmo...

Cortês – Pernambuco, sábado, 17 de março de 2012.

sexta-feira, 16 de março de 2012

sonhar também acorda... / fábio de carvalho (04/02/2012)

...passo horas do dia e da noite a sonhar...
...sei e pude perceber que sonhar também acorda...
...vou procurar alcançar a voz das estrelas agora...
...tenho pressa em ver meu brilho aparecer...
...mas também tenho calma e esperança...
                                                   Fábio de Carvalho


sonhar também acorda... / fábio de carvalho


Hoje eu pude perceber o voo de uma borboleta...
Enchi-me de saudades dos dias de primavera...
Algo me revigorou a alma, o semblante, o sorriso apareceu!
Pude perceber que fui capaz, não sei como, de deixar passar tantos retratos naturais, tantos ícones majestosos, tantos recados que o tempo me trazia por meio das coisas ao meu redor...
As cores do ambiente iluminaram meu olhar com o colorido do dia...
Minha reação no momento, no momento exato, foi um lacrimejar natural.
Minha alma aplaudia a minha reação.
Meu coração não compreendia o porquê de tal sentimento, de tal emoção tão impressionável.
Algo de sobrenatural envolvia meu envoltório corporal.
Coisas assim me são constantes, mas não entendo porque nunca abri os olhos para tais façanhas do tempo por meio da natureza.
Nunca fui tão amigo da natureza como agora sou.
Ela, com um simples mecanismo, me fez sentir saudade de uma estação que nos demonstra o renascer das coisas.
As primaveras de vida são como as primaveras da natureza: tudo aquilo que vemos e que passamos, logo mais, passa com os dias...
Não bastou a borboleta em pleno verão para eu perceber que não existe estação de vida para que nós esperemos, por exemplo, um fruto em seu tempo, uma flor na sua época...
A natureza por sinal é a ferramenta única e de si mesma que nos chega sem que percebamos.
Vejam só, vi uma borboleta no verão...
Tomei um banho de chuva no verão...Quase não suportei o calor no verão...
Colhi um fruto no verão...
Nossas estações permitem que nós sonhemos com algo que muitas vezes achamos que não está em nosso alcance.
Eu pude perceber algo a mais quando passei a observar mais de perto a natureza.
Sonhei e sonho bastante com aquilo que nos compete sonhar, mas sonho também com coisas quase que visivelmente impossíveis.
Certo dia eu desejei ser um pintor das coisas secas, da miséria, da tristeza e do sofrimento...
O destino me fez poeta, sonetista, escritor das coisas melancólicas, do tempo e da vida...
Mal pude perceber que um dia desejei também ser um poeta...
Lembrei-me disso, quando vi em uma arvore, uma cigarra cantarolando versos que apenas elas por si só compreendiam...
Mais adiante pude também observar as declamações dos grilos em suas cerradas cantaroladas há meia noite...
Como eu não percebi antes as poesias da natureza?
Como passei tão despercebido pelos poetas naturais?
Meus olhos não enxergavam, meus ouvidos não captavam, meu coração não sentia, meu espírito não alcançava...
Mas vejam só!...
Sintam o teor de tais palavras...
__Uffffffffff...
É o barulho do mar!...
Vejam, observem, leiam e segurem a consoante “f” na voz e  comprovem se não é o barulho do mar...
__Uffffffffff...
É sensacional!
Agora vejam o barulho do ar.
É impressionável...
__Irirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...
__Irirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...
Não compreendo como nunca havia percebido as declamações da natureza antes...
...o som natural das coisas...
Hoje sonho com isto...
A natureza me compreende agora mais do que antes.
Passo horas do dia e da noite a sonhar...
Sei e pude perceber que sonhar também acorda...
Vou procurar alcançar a voz das estrelas agora...
Tenho pressa em ver meu brilho aparecer...
Mas também tenho calma e esperança...

Cortês - Pernambuco, sábado, 04 de fevereiro de 2012.

quarta-feira, 14 de março de 2012

visão do espírito / fábio de carvalho (13/03/2012)

"A minha verdade é a mesma que traz as ondas, que leva o dia, que faz as estrelas brilhantes.
Meu olhar, meu eterno olhar, é terno, e eterno sempre será".
Fábio de Carvalho
   


visão do espírito / fábio de carvalho

Uma das coisas que o ser humano exclui de si, e às vezes inconscientemente, é aquilo que de certo modo representou algo para ele em algum momento.
Eu não costumo, naturalmente, esquecer das coisas que me marcou, das coisas que representaram algo para mim.
Mesmo que aquilo tenha me feito mal de certa maneira.
Tudo que vivemos, na realidade nos é garantido uma, duas páginas de experiência.
Creio que como o mar tem suas ondas, nós, os seres humanos, temos dentro de nós a saudade.
A saudade faz parte da minha vida como o ar que respiramos.
Não compreendo o destino, em alguns casos, que ao se dispor em nos colocar dentro dele, abate-nos de uma maneira tão repentina que nunca saberíamos o porquê de tais casualidades.
Não compreendo as casualidades da vida como coisas que nos foram escritas nas páginas do nosso destino.
O acaso para mim é o fato concreto.
A essência de um fato concreto é saber que aquilo ocorreu por algum motivo.
Os motivos que nos cercam, que se apresentam para nós, acerca de indagações ao tempo ou ao destino, são essencialmente o mesmo que encontramos por estarmos vivos.
O fato é que quando vivemos e conhecemos lugares, pessoas...queremos voltar e rever, para abraçar e estancar a saudade.
Caberá ao destino representar-se como este que leva e que trás? Que aproxima e que afasta? Que alegra e que entristece?
Que se dispõe e nos indispõe ao mudar sua essência, sua natureza primária?
Meus olhos já não buscam a real compreensão das coisas que o destino me tem colocado.
Sei que é inevitável olhar do cais o horizonte e não sentir algo diferente.
Acredito no destino como creio nas minhas palavras.
E... Mesmo apesar de saber que as palavras, todas elas, já foram escritas, ainda assim acredito nas coletâneas que elaboro mesmo desarticuladas, porém puras em essência de sentimentos.
A minha verdade é a mesma que traz as ondas, que leva o dia, que faz as estrelas brilhantes.
Meu olhar, meu eterno olhar, é terno, e eterno sempre será.

Cortês - Pernambuco, terça-feira, 13 de março de 2012.

terça-feira, 13 de março de 2012

fins de tardes / fábio de carvalho (13/03/2012)

...vejo de longe, do pontal, a onda se curvando.
...vejam só! ...é maravilhoso observar uma onda curvar-se.
...até as ondas se curvam...”

                                      Fábio de Carvalho

fins de tardes / fábio de carvalho


Ontem no final da tarde, o lilás no pontal do cais me fez lembrar, imaginar o tempo...
Interessante: o tempo passa...
Não percebia que aos poucos o lilás ficava escuro, negro...
Quase pude sentir a essência do fim daquela tarde.
Que tarde triste!
A tristeza não representa muito para mim nesta vida.
Não dou muita importância a este sentimento que brota da alma.
Já estou acostumado com despedidas, saudades, ausências, ingratidões...
Do pontilhão, de bruços, percebi no além-mar uma Náu quase sem rumo.
Sem rumo estava eu ou talvez meu olhar.
Quase nunca percebemos que a distância muitas vezes apaga aquilo que desenhamos com tinta de sangue.
Creio que não errarei quando o que me for encaminhado me chegar às mãos... Saberei cuidar e apreciar.
Coloco-me sempre a disposição de mim mesmo quando o assunto é observar, sentir, fechar os olhos para buscar algo que se foi.
Meus olhos já falam aquilo que penso.
Minha face já mostra as cicatrizes do destino.
Minha alma reconhece e me diz que as chagas do espírito me são necessárias.
Não me comprometo em fazer algo que não seja meu.
O que me é de posse são meus pensamentos, minha visão pessoal, meus sentimentos distantes e secretos.
Vejo de longe, do pontal, a onda se curvando.
Vajam só! É maravilhoso observar uma onda curvar-se.
Até as ondas se curvam...
Por que não nos curvarmos em situações tão pequenas, simples?...
Por que resistir ao que nos é próprio e estar-nos distante?
Logo, logo as ondas de diluem!
O tempo de vida de uma onda é muito curto.
Fração de anos luzes.
Quando aquela onda se desfaz, logo vêm outras...
As outras ondas não são as que vieram.
As ondas são os únicos “seres” da terra que só nos visitam uma vez.
Levantam-se, e ao caminhar em direção qualquer, se esvaem.
Não sei bem se as ondas são espíritos de luz que nos visitam de quando em vez.
Ao observá-las com os olhos do coração, concluí, certa vez, que a vida passa como tais ondas, que logo depois de se levantarem, caem por águas...
Sinto com o coração do meu espírito que devo observar mais e mais em fins de tardes o lilás que a natureza produz; o sol indo, de leve, pedindo licença ao cumprimentar a noite que vem delicadamente.
Sinto ainda, que devo sentir tudo que me fora escrito sentir...
Mesmo que o que me vier ao coração, seja de essência melancólica, de natureza angustiante, de profundeza triste, de mágoa interior...
Corri tanto para chegar onde agora estou.
Confesso que meu olhar é mais distante do que ontem.
Ainda assim desejo ver muitos fins de tardes...
...do cais...
...da minha janela...
...de olhos fechados...
...de alma, de alma...


Cortês – Pernambuco, terça-feira, 13 de março de 2012.  

sábado, 10 de março de 2012

saudade terna / fábio de carvalho (16/07/2009)


 ...'Escrevestes o que fora escrito na aurora da tua vida.
O despertar dos teus primeiros sorrisos...
 No brilho dos teus olhos juvenis'...

Fábio de Carvalho


saudade terna... / fábio de carvalho

__Não compreendeste! Não...
Rompeste o laço quase eternizado
Demonstrasse o que minha alma duvidava
ou não queria enxergar.
Duvidar seria ingenuidade, talvez!
A crença, eventualmente, uma imaturidade...
...sem uma natural aliança;
Desventura era a última hipótese...
A presença, a primeira de todas.

Buscastes o que todo mundo busca;
Deixas para traz uma vida fictícia...
De ilusões que alimentava-nos,
alegrava-nos...
Escrevestes o que fora escrito na aurora da tua vida.
o despertar do teus primeiros sorrisos...
No brilho dos teus olhos juvenis...
No tocar das mãos suaves...
Na ilusão do pensamento iluminado.

Resolveste ir...
Concretamente!
Além dos desconcertos, surpresa;
Libero-te!
Buscas teu amanhã, é fato!
Quero ver-te um dia...
E temo não suportar
Imagino a chama reacendendo no futuro,
quando ver-te... feliz!
Temo isto!

Reservo sempre um minuto do meu dia
Um minuto que se sobrepõe há uma dúzia de horas
E ao pensar, lembrar da dita saudade
Como um ponteiro de relógio que me avisa
Em hora casual
Que teu despedir...
...despertou cegamente o que de fato nos aflige.

Confundo-me, às vezes, com o que se foi...
É bem verdade!
"Eu me foi primeiro..."
E como uma folha caída no chão
empurrada aos poucos pelo vento,
indo leve, silenciosa
manchando e aromatizando por onde passa
confronta-me como um acelerar igual...
Ao cruzar olhares,
relembrar situações,
inquietar-se, chorar...
sorrir, ouvir-se no próprio silêncio, olhar ao céu!

E na incerteza do amanhã
Concluímos que somos apenas "um"
Distantes um do outro
Sentindo saudades
Apenas questionando o destino
"Com a semente guardada"
"Com um segredo que sangra"
"Com uma saudade terna".

Cortês - Pernambuco, quinta-feira, 16 de julho de 2009.

terça-feira, 6 de março de 2012

um dia a menos / fábio de carvalho (17/04/2005)

"Pisar firme é uma meta, (...)
Um sonho de todos nós.
Voar é algo impossível.
Por isso mesmo pisemos firme".
                                         Fábio de Carvalho



um dia a menos / fábio de carvalho

Hoje somos felizes! (?)
Pelo menos acreditamos nisso.
Acreditamos em muitas outras coisas.
Jamais devemos desacreditar.
Pisar firme é uma meta, (...)
Um sonho de todos nós.
Voar é algo impossível.
Por isso mesmo pisemos firme.

Acreditamos na felicidade!
Uma felicidade às vezes forçada.
Observamos o tempo passar...
E aceitamos. Não há escolha.

Quando acordamos vemos mais um dia...
Um dia como qualquer outro.
Um dia mais velho do que o outro.
Um dia bem mais perto do ultimo dia.

Ainda assim acreditamos.
Ainda assim queremos acreditar
em uma felicidade desmedida,
em uma felicidade forçada,
em algo que não existe,
em algo que criamos (,)... que projetamos.

Projetamos a felicidade.
Acreditamos nesse projeto.
Buscamos o sorriso.
Tem-se um sorriso baldio.
Mas mesmo assim acreditamos que somos felizes.
Felizes em sonho, (!)
Felizes em planos, (!) (...)
Vendo mais um dia se distanciar.

Cortês-Pernambuco, 17 de abril de 2005.

segunda-feira, 5 de março de 2012

o cego paisagista / fábio de carvalho (05/02/2012)



o cego paisagista / fábio de carvalho


Eu tenho desacostumado comigo algumas vezes por me observar mais de perto.
Pensei vagamente, que eu era alguém que reluzia escuridão e obscurecia as luzes matinais...
Nas madrugadas tenho analisado minuciosamente o que eu escuto.
Nessas horas, o silêncio é a voz muda que compreendo com sentimentos de alguém que se sente refém de algo que não está vendo, mas que o sente sem saber o que é...
As fendas do meu olhar não se retraem...
Elas são caminhos que minhas lágrimas percorrem quando julgam necessário.
A necessidade real que sinto em momentos silenciosos é a de que para ouvir-se é necessário ouvir o silêncio.
Quem se escuta percebe a entonação de si próprio.
O algoz silêncio transforma-se em suave melodia.
Não se pode escutar, por exemplo, o canto de um pássaro apenas com os olhos abertos.
Quando fechamos nossos olhos concluímos que muitas vezes, vemos mais as coisas na escuridão momentânea do que se estivéssemos contemplando literalmente aquilo que miramos.
O resultado de enxergar com a mente é a maneira de contemplar com os olhos da alma.
A alma se deslumbra quando fechamos nossos  olhos para imaginar ou mesmo, lembrar de algo que nos fascinou.
Como poder ver sem os olhos abertos?
Como poder ouvir sem que nenhum som seja produzido?
Como caminhar sem asfaltos, estradas, montanhas?...
Por tais indagações, muitas vezes, me distanciei de mim sem se quer perceber.
Eu, que tanto observo as coisas com os olhos abertos, me acostumei a fechá-los para poder sentir a emoção verdadeira e o direcionamento correto...
Assim, escuto-me tanto no silêncio madrugal que consigo tocar a essência do som mudo.
Contemplo já há alguns dias, o raiar do sol da varanda imaginária...
Vejo a chuva como ela é: transparente e fria...
Sinto o que é de fato o sol: chama de vulcão, pois seu calor enternece minha sensibilidade, meu labutar incessante pela verdadeira visão das coisas.
Descrevo de dentro para fora o cais medonho. Suas ondas, suas cores, seus deslumbrantes teatros em fins de tarde...
Acato tudo que vejo de olhos fechados.
Recebo de tudo isto, a emoção indescritível de sua essência.
Nas noites, por exemplo, posso contemplar as estrelas...
Vejo aquele tapete negro celeste, pontos cintilantes, raios de despedidas cadentes, circunferências esbranquiçadas como meus olhos em noites de saudade...
Tudo isso me vem através do vento.
O vento é o mensageiro dos astros celestes e de todo cenário astral.
Pude perceber de olhos fechados que qualquer paisagem que desejarmos ver, podemos assim fazer.
De olhos abertos, mas sem a luz, pude sentir coisas que são mais do que se as imagens se projetassem, aparecessem à luz dos meus olhos.
Na minha escuridão perfeita, sinto-a, e ao sentir, sei a essência de tal visão interior.
Se tudo aquilo que víssemos fosse válido apenas sobre a luz da nossa retina, meu espirito não transmitiria tanta emoção acerca das imagens que a minha mente me apresenta.
Cada qual vê à sua maneira.
Quando pude observar mais de perto ao sentir após minha mente transmitir tantas imagens milagrosas...
...rios, chuva, pássaros, estrelas, o cais...
...reconheci que a verdadeira luz é aquela que lançamos de dentro de nós.
Hoje caminho com o brilho estrelar, com a luz do sol, com o cintilar das estrelas, com a iluminação da luz...
Mas carrego comigo, mesmo diante de tantas paisagens que só vejo em mente, a luz mais honesta e pura que se pode comportar em um ser vivente...
Sinto o que um cais representa...
Saudades, partidas, despedidas, esperanças...
E na luz baldia que meus olhos não alcançam, está a luz cadente, que ao sair de dentro da alma, transmite o que podemos sentir, mesmo sem ver literalmente...


Cortês-Pernambuco, domingo, 05 de fevereiro de 2012.